GRAFFITI E PIXAÇÃO: LINGUAGEM E VISIBILIDADE NO ESPAÇO URBANO
Ana C. Honorio
De que forma o Graffiti e a pichação delineiam linguagens que modificam os regimes de visualidade e
visibilidade na apropriação simbólica das paisagens urbanas contemporâneas? Os
símbolos e os sentidos urbanos são estruturas mediadas pelas escrituras e
seus discursos que se chocam na disputa de sentido no espaço. A dominação simbólica na cidade
faz dela um espaço de representação que oculta certas representatividades não
hegemônicas presentes na construção da sua paisagem.
Tartaglia (2015) discute a arte na disputa entre a visualidade e visibilidade no espaço público da cidade. Para
ele, a visualidade seria um ponto de vista, ela se circunscreve ao campo
perceptivo a partir de um observador que denotaria os sentidos e significados
de uma paisagem; a visibilidade, por sua vez, é configurada por uma disputa
política e simbólica, nos espaços públicos e privados, por direitos e
representatividade de sujeitos ocultados da visualidade urbana: “A disputa pela
visibilidade na paisagem urbana estabelece uma tensão permanente entre os
sujeitos que buscam seu reconhecimento, por vezes, ocultados por regimes de
visibilidade que definem os padrões estéticos norteadores do ordenamento das
cidades” (TARTAGLIA, 2015, p. 129). Nesse sentido é que entenderemos como a
cidade é operada de modo a ocultar (marginalizar) sujeitos e identidades,
através da construção de uma linguagem visual dominada pelo mercado e operada
pelos grupos dominantes.
A primazia de imagens
na contemporaneidade – observa Tartaglia – se baseia numa visibilidade seletiva
de símbolos e de grupos sociais, imposta pela racionalidade mercadológica
vigente. Em muito a expressividade do graffiti e da pichação se choca o
regime de visibilidade dos grupos
hegemônicos da cidade. Podemos pensar o
graffiti e a pichação como linguagens visuais pela sua manifestação imagética e
escrita que media a comunicação entre grupos de pichadores
e de grafiteiros, além de comunicar com os citadinos em geral. O fotógrafo
Choque ressalta que a cidade de São Paulo se tornou um agente verticalizador
das letras, “a escrita pichação de São Paulo vai seguir as linhas guias da
cidade. É como se a cidade fosse um caderno de caligrafia gigante e os pichadores
vão preenchendo esse espaço” (CHOQUE, In: Filme Documentário PIXO, 2009).
A tessitura linguística
do graffiti e da pixação conforma no espaço urbano uma gramática de vozes
marginalizadas e transgressoras da realidade imposta. Ao transformarem a
linguagem da cidade tornam possíveis novos uso-significados pelos sujeitos que
dela se apropria, pois trazem à tona o protagonismo de grupos marginalizados da
construção e apropriação da cidade. Na estética dessa arte, há uma quebra da
unilateralidade discursiva orientada pelo ordenamento capitalista sobre o
espaço urbano, através do contra discurso que ela estabelece na estrutura da
cidade.
As linguagens dessas grafias operam
significantes que agenciam novas formas simbólicas na representação estética na
cidade, em que grupos marginalizados tomam o protagonismo na construção de
significado do/no espaço urbano.O graffiti e pichação representam maneiras de ser e estar de grupos na cidade. Nessa arte, a
experiência urbana é um pano de fundo constitutivo e constituinte da sua
expressão estética que escancara o choque de imagens-mundos públicos e privados da cidade.
Lefebvre discutindo
sobre a maneira que a estrutura social através das instituições e das
ideologias se projetam no urbano, nos propõe a ver a cidade como um “conjunto
significante” na forma de uma linguagem urbana através da qual “se estipula
(significa) uma hierarquia minuciosa dos lugares, dos instantes, das ocupações,
das pessoas” (LEFEBVRE, 1991, p. 62). A cidade enquanto meio (canais) de linguagens de diversas naturezas (sonora, visual, tátil...) é um espaço
de circulação de mensagens veiculadas por símbolos-significantes, quais
estabelecem um ordenamento aos usos-significados da produção da vida urbana no mundo capitalista. Podemos pensar na moral burguesa entranhada na ordem política, na hierarquia de raça,
nas divisão do trabalho, enfim: é pelo ordenamento desses sistemas de sentidos que
advêm os valores na sociedade de mercado, em que a relação semiótica
(significado e significante) se transveste no “consumo de signos”:
É
assim que a publicidade para os bens de consumo se torna no principal bem de
consumo; ela tende a incorporar a arte, a literatura, a poesia, e a suplantá-las
ao utilizá-las como retóricas. Torna-se assim a própria ideologia dessa
sociedade, cada “objeto”, cada “bem” se desdobra numa realidade e numa imagem,
fazendo esta parte essencial do consumo. Consome-se tanto signos quantos
objetos: signos da felicidade, da satisfação, do poder, da riqueza, da ciência,
da técnica, etc. (...) O signo é comprado e vendido; a linguagem torna-se valor
de troca. Sob a aparência de signos e de significações em geral, são as
significações desta sociedade que são entregues ao consumo (LEFEBVRE, 1991,
p.63-64).
Os
signos impregnados pelo discurso capitalista se inscrevem como significante de
primeira ordem na determinação dos usos do espaço citadino. O urbano é uma
realidade discursiva material entranhada nas relações de poder e exclusão. Os objetos
urbanos da rede capitalista tornam-se signos pelo valor a que lhes são
atribuídos pela racionalidade de consumo. Assim, não só objetos mercadológicos
ganham valor de troca, como também os espaços ganham essa dimensão. É por isso
que uma pichação incomoda tanto: ela impõe outra lei que fere a coerção
valorativa dos espaços do capital.
Ainda na lógica da
análise semiológica, Lefebvre distingue dimensões e níveis de linguagem da
cidade:
Existe
a fala da cidade: aquilo que acontece na rua, nas praças, nos vazios, aquilo
que aí se diz. Existe a língua da cidade: as particularidades próprias a uma
tal cidade e que são expressas nas conversas, nos gestos, nas roupas, nas
palavras e nos empregos das palavras pelos habitantes. Existe a linguagem
urbana, que se pode considerar como linguagens de conotações, sistema
secundário e derivado no interior do sistema denotativo(...). Finalmente,
existe a escrita da cidade: aquilo que se inscreve e se prescreve em seus
muros, na disposição dos lugares(...) (LEFEBVRE, 1991, p. 64).
A pichação imprime a
identidade renegada pelo consenso homogeneizado da cidade, de maneira a
descentralizar o focalizador do discurso manufaturalizado pela capitalização do
espaço. O picho re-significa o significante espacializado sob o ordenamento do
capital pela re-valoração do significado urbano pela arte e pela disputa
territorial por espaços na cidade; redefine o eixo do significado que fala a
cidade pelo significante de quem fala à cidade. Desmascara o inflexo do muro que o lado de dentro segrega. Impõe a disputa de significado entre os
atores que falam na cidade, descentraliza os significados que se comunicam pela
cidade.
O ato criativo da
intervenção urbana se traduz em obras que compõem o espaço citadino no plano do
vivido transformando a comunicação visual por intervenções que são, ao mesmo
tempo, poéticas, políticas e territoriais. Nas cidades tomadas por propagandas,
a ordem estabelecida pelo capital sufoca o direito à cidade. A pichação e o
grafite são meios de apropriação de espaços privados, resignificam a paisagem,
interpõem territorialidades e transformam a experiência estética dos passantes.
E, assim, a superfície da cidade torna-se meio das linguagens de sujeitos que anunciam as utopias e que denunciam as mazelas sociais deste tempo.
O
graffiti e a pichação são narrativas visuais da cidade que constroem novos
simbolismos de significação da urbanidade. São elementos que constroem a produção material e simbólica da
cidade, são linguagens que representam discursos e identidades marginalizadas que resistem na disputa territorial pela semântica da
cidade. “O graffiti subverte a estética da ordem e a substitui pela ética da
visibilidade, da inconformidade e da resistência” (COSTA JUNIOR; PORTINARI,
2014, p.3).
REFERÊNCIAS:
COSTA JÚNIOR, Hely Geraldo. PORTINARI, Denise Berruezo. Estética política: sobre grafite e subjetividade na América Latina. Revista Digital do Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História, n.3, Universidade Federal da Integração Latino-Americana-UNILA, 2014.
LEFEBVRE, Henry. O direito à cidade. Editora Moraes, São Paulo, 1991.
PIXO. Filme documentário. Direção: João Wainer e
Roberto T. Oliveira. São Paulo: Sindicato Paralelo Filmes, 2009. (61 min.)
son., color. Disponível em: https://vimeo.com/29691112.
TARTAGLIA,
Leandro. O visível e o invisível: paisagem
urbana e arte pública. Élisée, Rev. Geo. UEG, v.4, n.1, p.126-139. Anápolis,
2015.
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